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Uma vovó perplexa me contou que a filha está toda prosa porque decidiu ensinar à sua netinha de dois anos a economizar.

 
Louvável? Sem dúvida; não fosse, em primeiro lugar, a impossibilidade de se fazer criancinha tão pequena entender o sentido real da palavra, e, em segundo, a forma totalmente inadequada escolhida. Visualizem: durante uma visita a menininha surgiu com um cofrinho do tipo “porquinho” e, compenetrada, dirigiu-se, de um em um, aos adultos presentes pedindo moedas para o cofrinho.
Claro, todos esvaziaram bolsos e porta-moedas para atendê-la. A fofurinha dedicadamente guardou cada uma no porquinho – e se foi toda feliz para o quarto, certa de que tinha feito o que era necessário.

 
Para compor melhor o quadro, preciso contar que nossa protagonista tem tantos brinquedos, tantos, que há dezenas deles espalhados pelo chão, cadeiras e em cima dos móveis. Sem contar o sofá, onde dezenas de bichinhos de pelúcia brigam por espaço. Andar por ali se tornou tarefa perigosa! Corre-se o risco de derrapar em velocípedes, carrinhos ou bonecas – sejam elas pequenas ou grandes, já que há para todos os gostos -, e desabar como peso morto no chão. Até mesmo uma piscininha de bolas, dessas que se vê nos shoppings lá vive num canto.
O leitor tem agora noção do montante de brinquedos que lembra mais uma loja do que o muitíssimo bem decorado apartamento, anterior à chegada da menina.

 
As visitas naquele dia fora, devidamente informadas de que a poupança era para ela pudesse comprar alguma coisinha com o dinheiro que juntaria. Não estou julgando ninguém, longe disso. Reconheço a boa intenção na atitude dos pais; estou apenas aproveitando o fato para levantar algumas questões… Sabendo que pais têm forte influência na formação de valores dos filhos, pergunto: ensinar a poupar é isso? É correto fazer poupança com dinheiro alheio (sem duplo sentido, por favor!)?
Poupar é acumular dinheiro para comprar mais coisas desnecessárias? Há sentido em “ensinar a poupar” a quem não compreende ainda o que seja “ganhar”? Pessoas que têm tudo em excesso – brinquedos, roupas, revistinhas etc. -, perceberão qualquer razão para economizar? Para que, se tem tudo e tanto?

 
Para lutar por um objetivo ou para adotar um comportamento é necessário que a pessoa queira de verdade. Então, antes de qualquer coisa, é preciso dar condições de as crianças desejarem algo. E isso só parando de dar tantos presentes sempre. Datas específicas como Natal, Dia das Crianças e aniversários são apropriadas – e bastam.

 
Depois é deixar passar o tempo até que surja algo que a criança realmente deseje.  E, quando isso ocorrer, ainda assim, não é hora de satisfazer, para que esse desejo floresça até a criança sonhar com o brinquedo! E deixe-a sonhar por um tempo tal que seja suficiente para se introduzir a ideia de economizar.

 
Esse processo é essencial para que o desejo não se apague segundos depois de concretizado. É o que sucede aos que, a toda hora, recebem mais e mais mimos. E, para que o desejo seja verdadeiro tem-se que começar por “dar menos” aos filhos – não menos amor, nem menos segurança, nem menos tempo, nem menos proteção: menos coisas materiais – bem entendido. No caso de crianças sufocadas de muito ter, dar menos (menos brinquedos, menos presentes e menos mimos) é mais, muito mais!

 
(*) Filósofa, Mestre em Educação, Autora de “O Adolescente por Ele Mesmo.”

 

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