Uma escritora acaba de ter aprovado seu projeto de “adaptar” clássicos da literatura brasileira dando feição “simplificada” ao texto original. Isto é: palavras difíceis serão substituídas por outras “mais fáceis”. Objetivo alegado: seduzir jovens para a leitura. A polêmica começou e continua, porque o MEC ao que parece, garantiu verbas para a execução, com previsão de distribuir seiscentos mil exemplares a alunos das redes públicas. Pensemos juntos: a) o “texto facilitado” é obra do autor que escreveu primeiro, ou de quem o transformou? b) Se Machado de Assis (ou José de Alencar, outro autor cotado no projeto) acordasse de seu sono eterno, se reconheceria nesse novo texto? c) E mais, concordaria com as alterações? Como não podem nos responder, fica a questão da autoria em aberto. d) Concordo que a linguagem erudita pode afastar leitores menos aplicados. Entretanto, não acredito que tornar a linguagem de um grande escritor em texto prosaico, garante que quem tinha preguiça de ler textos complexos, e já conhecendo a trama numa leitura simplificada, se sentirá motivado a ler a mesma coisa de novo em formato mais difícil. Aliás, tenho certeza que não, embora não possa garantir. Da mesma forma que quem idealizou o trabalho também não pode. E menos ainda o MinC, que não sei porque, já disponibilizou verba e destinação ao produto, que ainda está em fase de construção (são vários volumes), sem previamente ouvir especialistas não comprometidos; e) Por que se leem os clássicos? Para conhecer o pensamento, o charme e o estilo de autores imortais. Fui iniciada nessa leitura pela minha inesquecível professora D. Elcy. O Guarani foi o primeiro. Tive um pouco de dificuldade de início, mas eu tinha apenas doze anos! Depois o difícil ficou fácil e, em seu lugar, veio o prazer de acompanhar a trama, o romance, a descrição de um Brasil que não mais existe, e a sedução de personagens e culturas diversas. Cada nova palavra dissecada me enriqueceu. Não me cansei, nem se cansaram meus colegas de turma e de época. Então por que parece que as pessoas hoje não acreditam mais na capacidade dos jovens e têm que facilitar tudo para eles, “tadinhos? Serão mesmo tadinhos, esses que ensinam a pais, mães e avós a usar os PS e PSPs da vida, plataformas complexas em que se lançam com brilhante desempenho, ou a como operar redes sociais e PCs, como se fossem coisa de somenos? D. Elcy e demais colegas de regência acreditavam que podíamos crescer. E por isso crescemos. Não facilitou demais, para que nos esforçássemos. Será que essa geração é mais frágil? Nada indica que seja. Ou a superproteção, que já fez estragos na família, agora mora na escola? Ou, pior ainda, será que já estamos nas mãos dos incompreensíveis desígnios de burocratas mal preparados que detêm o poder decisório? E pergunto finalizando: a tarefa docente (ou do escritor) é empobrecer o estilo de autores consagrados para “facilitar” a compreensão dos alunos com limitado vocabulário? Ou é fazer com que as novas gerações sigam mais e mais adiante na aprendizagem? Afinal queremos um país de leitores, ou um Brasil em que as pessoas só compreendam o que é facilzinho?

(*) Profa. Adjunta da UFRJ, Filósofa, Mestre em Educação, autora de O Adolescente por Ele Mesmo, entre 28 outros livros.

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