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Educação financeira, na minha experiência, é também reflexão financeira. Acredito que as atitudes com relação ao dinheiro estão acima das contas e cálculos financeiros que podem ser feitos por máquinas, programas, aplicativos e outras formas automatizadas; entretanto, não somos máquinas. Ainda.

E como andarão os jovens que hoje convivem com tantas obrigações e, assim, se mostram pressionados? Muitas vezes, sem a mesma garra dos seus pais ou avós que viveram em tempos muito, mas muito mais difíceis.

Recentemente, tive a oportunidade de proferir palestras sobre comportamento financeiro para um grande grupo de trabalhadores, em sua maioria com ensino médio, mais práticos do que técnicos, com idade média de quarenta e poucos anos e no comando de equipes profissionais não tão qualificadas do ponto de vista “educação formal”. As observações foram surpreendentes, pois as formas de poupar e conquistar revelaram pessoas com muita vontade de crescer em todos os sentidos.

Terminada esta experiência fui proferir outra palestra, nos mesmos moldes, desta vez, para um público jovem, média de 25 anos, primeiro emprego, trainees selecionados entre quase dez mil candidatos, todos com nível superior, alguns já preocupados ou cursando pós-graduação, vivências variadas no exterior e assim por diante. Que desafio! Como manter atenta esta plateia já dispersa por conta dos celulares, aplicativos, jogos, “Face” e tantas outras coisas tão presentes nessa geração.

Tanto na turma dos trabalhadores como dos trainees optei por iniciar o trabalho aplicando um jogo baseado em recursos naturais cujo objetivo era administrar tais recursos e ver quais os grupos que conseguiriam terminar as diversas fases sem destruir o meio ambiente e, ainda assim, manter o suficiente para o sustento no futuro. Uma metáfora para ser comparada com o dinheiro nosso de cada dia.

O jogo começa, escolhem-se os líderes de cada grupo, bem como o papel de cada um e finalmente os grupos vão desenvolvendo suas próprias formas de jogar. Os mais velhos, por assim dizer, estavam mais descontraídos, os mais jovens, tensos; afinal, devia haver alguma “pegadinha”. Os mais velhos usavam a experiência e os mais jovens faziam cálculos, produziam tabelas. Os mais velhos sorriam, trocavam experiências, os mais jovens competiam sem nem saber se deveriam fazê-lo. O jogo acabou e, para a frustração de alguns, não havia vencedores, perdedores e muito menos a esperada “pegadinha”. Era hora de contabilizar os resultados, discutir os métodos e técnicas utilizadas em cada fase. A conclusão viria mais tarde.

Iniciei, depois de um pequeno intervalo, a minha palestra. Silêncio na sala. O comportamento durante a palestra fora igual nos dois diferentes grupos com muita atenção, poucas observações e muita reflexão. Nada de números, mas abordei alguns temas como vaidade, consumismo, despreocupação com o futuro, atitudes… Não imaginei que os jovens teriam paciência em me ouvir. A cada frase, a cada exemplo, as expressões se mostravam mais sérias parecendo que, dentro de cada cabeça, as coisas iam se encaixando como se minhas palavras estivessem completando algo que estava faltando no dia a dia financeiro daquelas pessoas, fossem elas jovens ou não.

Depois de mais de duas horas prendendo a atenção daqueles jovens terminei a palestra com um dado surpreendente, que fez a reflexão chegar ao seu ponto máximo. O jogo era o mesmo, as regras idênticas, o material igual, porém, os “jogadores experientes” terminaram o jogo em menos tempo e, ainda por cima, com um resultado melhor. Para aqueles jovens, aquilo que havia acontecido era algo improvável, mas aconteceu.

Uma vida equilibrada, mais natural, mais participativa, com um nível de competitividade adequado à manutenção de cordiais relações para se alcançar bons resultados foi a grande lição daquele dia. Sem humildade em reconhecer que aprendemos todos os dias, sem respeitar a experiência das mais diversas pessoas que cruzam nossas vidas, sem entender que experiência é algo que se adquire com o tempo, os nossos jovens estarão escolhendo um futuro de frustrações, não só financeiras, mas também pessoais –  que hoje já se mostram através de relações frágeis, imediatismo, consumismo exagerado e infelizmente, em muitos casos, em vícios.

Reflexão financeira é muito mais do que ter e manter o dinheiro, é saber dosar as coisas, procurar equilíbrio, uma vida mais completa, saber administrar as inevitáveis adversidades da vida; afinal, a tão buscada felicidade não está só na quantidade de dinheiro que se acumula.

Seja um jovem feliz e responsável com o objetivo de ser um adulto respeitado. O dinheiro será apenas uma parte de seu projeto de vida. Tenha certeza disso.

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