Uma leitora do blog me sugeriu o tema, preocupada com a filha de sete anos, que pega dinheiro sem pedir nem dizer o que quer comprar.

A transição da lei do desejo (“eu quero agora!”) para a lei da realidade (“não posso ter tudo que quero”) é um processo que acontece aos poucos no decorrer da infância. Os limites claros e consistentes formam gradualmente a percepção do que nos pertence e do que pertence aos outros, ajudando a construir o freio interno que nos impede de avançar sobre os pertences alheios, mesmo quando nosso desejo é imperioso. Crianças pequenas querem levar para casa os brinquedos dos amigos ou da sala de aula. Choram contrariadas quando o desejo é frustrado e algumas tentam burlar a proibição pegando escondido.

Crianças maiores às vezes fazem o mesmo com o dinheiro, quando percebem que este é um meio para satisfazer seus desejos de comprar o que querem, mesmo que a consciência moral já esteja a caminho do desenvolvimento, indicando que esse comportamento é inaceitável. Como estão ligadas no que é veiculado pelos noticiários, chegam até mesmo a argumentar que isso não é grave, diante de tantos casos de corrupção e desvio do dinheiro público. Diante disso, muitos pais sentem dificuldades em transmitir a noção de certo e errado, colocando as consequências cabíveis quando essa conduta se repete.

Crianças maiores podem começar a estruturar disciplina financeira quando recebem uma pequena quantia semanal para suas compras. Mas, para isso, é importante que o dinheiro da “semanada” e, posteriormente, da “mesada” seja oferecido dentro dos critérios combinados. Se acabar antes do prazo, a criança ou o adolescente ficará sem ter o que comprar. Só encarando a frustração da “lei da realidade” será possível construir disciplina financeira, aprendendo a regular o próprio desejo. Muitos adultos não conseguem completar esse processo e vivem se endividando…

No entanto, quando pegar dinheiro escondido é uma conduta repetitiva, pode ser um sintoma que expressa outros tipos de sentimentos e desejos. Querer ser o centro das atenções, mostrar desse modo o ciúme do irmão que nasceu, a revolta pela separação dos pais, a inveja por não ter os mesmos pertences que os amigos. Conversar sobre esses sentimentos subjacentes pode ajudar a entender as reais necessidades que estão sendo reveladas pelo sintoma, abrindo caminho para construir “combinados” mais satisfatórios.

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