consumismo

 

Que a sociedade moderna supervaloriza os bens materiais é questão que não carece discutir. Em algumas datas então – Natal, Dia das Crianças – dá até calafrio em alguns… Porque hoje, o grande desafio da família é descobrir como educar de forma a que crianças e jovens não se deixem levar por valores que, longe de lhes garantir felicidade, acabam apenas envolvendo-os numa louca espiral de desejos e gastos crescentes, que quase nunca tem final feliz.

Sem dúvida, um primeiro aspecto a considerar é que adultos consumistas dificilmente poderão enfrentar o desafio de forma efetiva ou convincente. Afinal, essa onda consumista contamina adultos também. Não poucos buscam felicidade comprando, comprando e… Comprando! Em geral, acabam infelizes, incompletos. Colocar a felicidade pessoal na aquisição de objetos pode até propiciar prazer e alívio momentâneos. Fugazes ambos porém.

Consumir significa “gastar, aniquilar, anular” ou ainda “ficar reduzido a cinzas”[1]. O processo é mesmo assim: o prazer de comprar se extingue por si só, para retornar logo adiante, como fênix ressurgida das cinzas. É, portanto, um processo sem fim e dificilmente as pessoas poderão continuar por toda vida atendendo a desejos – seus inicialmente e de seus filhos depois.

Preocupa-me constatar que, a cada dia, mais pessoas adotam o modelo subliminarmente inculcado, sentindo-se compelidas a adquirir mais e mais produtos (muitos desnecessários ou similares aos que já possuem).

Quantos de nós tínhamos, há dez anos, um celular? E quantos ainda estão com o primeiro modelo adquirido, aqueles enormes, Deus o livre, que horror! Sem críticas a quem gosta de estar na última moda hi-tech, proponho somente que, por um instante, um segundinho só, pense se trocou a TV ou o telefone móvel porque realmente precisava. Necessidade ou impulso? Pense também em qual foi a relação custo-benefício da nova aquisição? Tem gente que ainda nem utiliza todos os recursos do atual ícone de consumo, mas não admite viver sem os waps, wips e outras siglas indecifráveis que cada modelo mais recente agrega. Tem horror em ao menos pensar em ler aqueles manuais, mas que o telefone novo está na bolsa, está… Ao menos isso! Porque carro importado ou do ano, TV de plasma – bem grande – não deu ainda para comprar, talvez nem dê, mas o celular colorido, fininho, que troca de “roupa” deu… Então, ótimo! Não que eu ache que não se deva comprar o que se quer (desde que com verba ganha honestamente, claro). A questão, porém, é exatamente essa: a gente queria mesmo? Ou alguma coisa ocorreu (influência das mídias, talvez?) que nos fez pensar que era imprescindível trocar o que quer que fosse – e o quanto antes?

Voltemos aos nossos filhos. Os que desejam vaciná-los contra a febre do consumo irracional devem começar mantendo-os a par da situação financeira da família. Especialmente, fazendo com que compreendam de que forma o dinheiro “chega” em casa: através do trabalho diário. Ele não “aparece” na carteira do papai ou da mamãe magicamente… Famílias têm gastos fixos mensais que precisam ser honrados – filhos podem e devem saber sobre eles;  também precisam saber que é importante guardar uma parcela, mesmo pequena, para extras (uma infiltração no teto, uma geladeira que pifa etc.)

O mais importante, porém, é discutir o impulso que leva milhares de pessoas a acumularem mais e mais “coisas”, às vezes pagando juros sobre juros, vivendo apertados, cortando itens talvez mais importantes e transformando a própria vida numa eterna loucura. Viver no limite total do orçamento (ou além dele) é se condenar ao desequilíbrio a qualquer evento não programado (uma doença, por exemplo). Por isso é bom manter os filhos informados especialmente, sobre a que a família dá valor de fato.

Mais cedo ou mais tarde nossos filhos conviverão com pessoas de maior poder aquisitivo. E se foram acostumados a olhar sempre para quem tem mais, para os estão a cada fim-de-semana com novas roupas e possibilidades financeiras para fazer mil programas, independentemente de ser sábado ou segunda-feira, as coisas podem ficar complicadas… Não prometa o que não pode comprar – e jamais se endivide para isso; deixe claro que se tivesse dinheiro sobrando até compraria, mas não se furte de dizer que não considera importante nem necessário… Em outras situações, procure mostrar que poderia lhes dar o que pedem, mas – em vez de sair correndo para chegar à loja antes que feche – faça seus filhos saberem onde se situam as prioridades da família, como estudos, comida farta, segurança, saúde, conforto em casa.

Lembre-se que, ao contrário do que a sociedade de consumo propala, não é nada mau para uma criança ou jovem desejar coisas sem conseguir logo, de mão beijada – e rapidinho… Esses desejos não realizados podem bem acabar constituindo importante mola propulsora e estímulo para lutas e conquistas pessoais. É muito saudável para o jovem querer realizar, produzir, trabalhar para alcançar o que os pais não lhes deram porque não puderam dar – ou preferiram mesmo simplesmente não lhes dar.

É preciso corrigir a idéia torta – e muito comum hoje, especialmente entre as classes A e B – de que os pais têm obrigação de dar aos filhos carro, viagens ao exterior, festas apoteóticas etc. Do ponto de vista educacional não é nada salutar que eles tenham convicção de que nunca precisarão lutar para conquistar coisa alguma, já que têm tudo a mão e sempre. Desejos não concretizados podem até produzir alguma frustração; mas não se assuste: nem toda frustração é negativa, como pensa a maioria. Muitas delas são a base que impulsiona as novas gerações a produzir, a se independentizar, a ter o “seu dinheiro” (não o da mesada, é claro), para não ter que “prestar contas a ninguém”.

Bem orientados eticamente, o “não ter tudo” conduz à necessidade de estudar, trabalhar, produzir, enfim. Bom demais, especialmente em tempos de filhos canguru…

Dediquemo-nos sim, de corpo e alma – a dar aos filhos o que é essencial: estudo, formação moral e ética, princípios e objetivos de vida. O resto (roupas de grife, dezenas de tênis, viagens e roupas) é secundário e como tal deve ser encarado. E, cá para nós, não é uma maravilha (e um alívio…) saber que você pode dar menos bens materiais, para que seus filhos sejam mais gente?

(*) Filósofa, Mestre em Educação, Escritora com 24 livros publicados no Brasil e no exterior, dentre os quais “Limites sem Trauma”; Os Direitos dos Pais” e “ “Filhos, Manual de Instruções”

 


[1] Ferreira, A..B H.. Novo Dicionário Aurélio di Séc. XXI da Língua Portuguesa, Positivo, Curitiba, 2004

Voltar para colunistas

Veja também

casa-propria-mbf
6 dicas para conquistar a casa própria!
Os preços dos imóveis estão mais baixos, mas será que com o que ganho é possível realizar o sonho de com  [...]
mbf_banner_noticias_16
Como evitar golpes na internet
  Veja como não cair em furadas ao fazer transações financeiras na web A internet oferece um mundo de   [...]
mbf_banners_portal_223x86_15
O que checar na fatura do cartão e no extrato bancário
Quem não verifica suas faturas e extratos não somente tem pouco controle sobre seus gastos como também pode  [...]