Voltei faz pouco tempo ao campus da universidade federal, onde trabalhei por décadas, para assistir à defesa da dissertação de mestrado de meu filho caçula. Encontrei as mesmas carteiras mal conservadas, o teto com infiltrações e as paredes com pintura gasta, que me recebiam ano após ano. Dá até certa depressão pensar que a maior parte das escolas da rede pública (independentemente do nível do ensino) continua tendo essa mesma cara triste, reflexo provável da importância que se dá à Educação no nosso país. É raro se encontrar prédios bem pintados e equipamentos de última geração, banheiros limpos e bebedores com água gelada nas escolas da rede. Mas, quem sabe, antes de morrer, eu ainda presencie esse meu sonho transformado em realidade? Ao se iniciarem, porém, os trabalhos, e ouvindo o jovem mestrando apresentar seu estudo com segurança e eficiência, mas também com humildade; ao ver a banca, composta por duas senhoras bem jovens, doutoradas e respeitadas, e pelo professor setentão, lúcido e transbordando conhecimento, o ambiente se transformou. De repente, tetos quebrados e paredes sujas cederam lugar à privilegiado espaço, palpitante de saber e respeito profissional. O mestrando falou por quarenta minutos – sem microfone: plateia e banca ouviam em silêncio tal, que se ouviria o voejar de mosquitos. Naquele momento e durante a inquirição, ninguém precisou pedir atenção; nem se cogitou saber se o jovem doutor se sentira feliz ou não ao longo dos quase dois anos que durou a pesquisa; também a ninguém interessou saber se fora prazeroso ou árduo o trabalho cujos resultados se discutia. O ambiente tinha o brilho que advém do saber, da ciência. Ali assistimos ao inverso do psicologismo que inunda as escolas – e conduz a resultados pífios. À banca interessava analisar o estudo com profundidade – e sem medo de “humilhar” ou “traumatizar” o aluno. Por essa razão podia apresentar com segurança suas críticas e sugestões – sempre fundamentadas no saber. Lindo de ver! Se você deseja ver seu filho brilhar num futuro próximo, lutando por algo mais do que por si próprio, se deseja legar ao país alguém saudável socialmente, não sinta pena quando seu filho tiver que estudar mais um pouco para não ficar em recuperação; nem se tiver que ficar uma tarde sem o tablet. Felicite-o por seu empenho, ao invés de ter dó do esforço. Em torno da mesa feia que descrevi, se sentaram doutores de saber inconteste; ali, só se via a beleza incomparável do saber e o desejo de contribuir – não de receber. Ali, a crítica não foi encarada como perseguição; foi ouvida com respeitoso interesse e como forma de crescer. Ao contrário do que preconiza a sociedade de consumo, o valor ali era aprender. Não consumir. Esse enfoque se torna superior à aparência externa. Prédios lindos em todas as escolas, com infraestrutura e equipamentos de ponta? Queremos sim! Mas não nos enganemos: sem objetivos claros, sem restaurar a autoridade docente, e sem valorizar o esforço pessoal que é insubstituível, não veremos acontecer nada do que desejamos. Se continuarmos a crer e a repetir que tudo se pode aprender entre gargalhadas, continuaremos a anos luz do progresso e da excelência em Educação e nas Ciências.

 

(*) Filósofa, Mestre em Educação, Escritora, autora de O Professor Refém, entre outros.

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