Volta e meia se ouve gente reclamando da qualidade da mão de obra brasileira. E com razão: é só observar profissionais de várias áreas para perceber o problema. Não são todos, claro; em qualquer profissão, há pessoas que se diferenciam. Há os que, por formação e personalidade, fazem tudo da melhor maneira sempre; assim como há os que parecem estar unicamente se desincumbindo de tarefas das quais querem “se livrar” e vivem à espera da hora da saída, como se ainda fossem estudantes levados. Mas a crise que preocupa não é a que referi nesses exemplos. É outra, mais grave, porque afeta toda a sociedade e não apenas quem teve o azar de se deparar com profissionais desmotivados ou a sorte de lidar com os que fazem a diferença.  É crise que extrapola esforços individuais ou idiossincrasias e tem origem em vários fatores, dentre os quais chamo atenção para dois, que podem trazer consequências sérias para o país. Embora setores produtivos da sociedade denunciem a situação diariamente, ainda não percebi ações efetivas do governo para combatê-la: O primeiro se refere à mudança de atitude de parte dos jovens frente à profissão, que parece ter relação com a forma pela qual são educados (superprotegidos e com poucos limites), mas que também está relacionada à enorme quantidade de mensagens que a sociedade passa via mídias, defendendo as ideias de que, para ser feliz, é preciso “fazer só o que se quer” e “só o que se gosta” e sempre associadas à questão da liberdade. Conceitos sedutores, que levam os desavisados a crer que é possível viver feliz a cada minuto, no trabalho e na vida relacional. Inverdade que causa enorme frustração a quem depois descobre na própria pele, que se trata de utopia falaciosa. Em geral essa descoberta só ocorre quando o jovem já abandonou os estudos (porque achava “chato” e já aprendeu que só faz o que gosta) ou saiu do emprego, porque o chefe criticou seu trabalho (e ele só faz o que quer). Desse embate com a realidade emerge o profissional precocemente amargo e desinteressado, que só trabalha porque precisa do dinheiro. Sem dedicação nem entusiasmo, portanto. O segundo aspecto tem relação com a péssima qualidade do ensino no país, agravada por medidas governamentais equivocadas, que só têm aumentado o número de profissionais com desempenho sofrível. E tem quem não compreenda a relação disso tudo com noticias que pipocam sobre erros na administração de remédios; sobre construções que desabam; e sobre profissionais que cometem erros básicos de concordância e mal sabem conjugar um verbo. Para piorar o quadro, faz poucos dias, um ex-presidente, não pela primeira vez, reafirmou em discurso seu desprezo pelos estudos, dando munição a quem, no emprego ou na escola se nega a aceitar críticas e reconhecer limitações, para poder progredir. Pior do que não saber, é pensar que sabe. Se influentes homens públicos referendam que estudar é bobagem; se os conceitos que a sociedade defende são os acima citados e outros de igual teor, fica claro quão necessário e urgente é corrigir tal distorção que só traz retrocesso. Caso contrário, continuaremos entre os piores nas avaliações internacionais de Educação e, em breve, encabeçaremos a relação de países com piores índices de produtividade.

(*) Filósofa, Mestre em Educação, Autora de “Encurtando a Adolescência” entre outros.

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